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Quando os pais invadem o casamento dos filhos

Existem fronteiras invisíveis que distinguem as relações que estabelecemos. O casal, por exemplo, quando se casa, cria uma fronteira que o distingue como uma nova família. Em outras palavras, as duas pessoas que se unem se distanciam emocionalmente das suas famílias de origem para consolidar a união. Assim, o maior vínculo de pertencimento do casal não é mais com os seus pais, mas sim com a sua nova família, com a sua própria família. Pelo menos, é assim que normalmente percebemos as famílias saudáveis. Quando os pais invadem o casamento dos filhos, quando invadem essa fronteira invisível, ou quando os filhos não conseguem se distanciar emocionalmente dos seus pais, problemas de relacionamento costumam aparecer. As fronteiras invisíveis protegem o relacionamento. O novo casal possui o desafio de se fortalecer enquanto casal. Isso significa construir um vínculo de pertencimento no qual os dois se reconheçam como uma família. Os dois se unem para compartilhar a vida. Sem essa proteção, ...

É preciso dar nome ao relacionamento?

Está se tornando comum casais se formarem e decidirem não nomear o relacionamento, ou seja, não se definirem, por exemplo, como “namorados”. Eles apenas se encontram com frequência. Às vezes, firmam inclusive um acordo no relacionamento, como manter a fidelidade, por exemplo. Contudo, continuam sem definir a relação. Esse tipo de relação, essa fase incerta entre o se conhecer e o namorar, que atualmente pode durar meses ou anos, está sendo denominada “situationship” (nome dado pela escritora estadunidense Carina Hseih em 2017), ou relacionamento de situação, em tradução livre. Muitas pessoas passam pela fase de incerteza sobre o status do relacionamento, um período em que se quer namorar, “oficializar” a relação, mas não se sabe se está cedo demais ou no momento certo. Essa fase acontece frequentemente nos relacionamentos. Entretanto, o que está acontecendo atualmente é diferente, muitas pessoas estão vivendo essa fase de incerteza por longos períodos, muitos meses ou mesmo anos. As pe...

Casais se tornam 'uma só pessoa' quando se casam?

“E Deus disse: ‘Por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma só pessoa’. Assim já não são duas pessoas, mas uma só” (Bíblia, Mateus, 19, 5-6). Pode-se traduzir “uma só pessoa” para “uma só carne”, como popularmente se fala. Considero importante refletir sobre a união conjugal por esse ponto de vista. Os casais realmente se tornam “uma só pessoa” quando se casam? Quais as consequências de se pensar assim? Antes de iniciar a reflexão, um esclarecimento: meu objetivo aqui não é interpretar a Bíblia, mas a representação social que o texto sagrado possui nas pessoas e na sociedade. Percebo na clínica conjugal e familiar duas ênfases distintas e opostas na forma como os casais veem o casamento. Na primeira ênfase, os cônjuges valorizam mais a conjugalidade que a individualidade. Assim, o casamento une as pessoas como se fossem realmente “uma só pessoa”. Nesse modelo, o casal busca compartilhar todos os momentos sociais em con...

Palestra de Abertura do Simpósio Gênero e Diversidade Sexual

Este simpósio tem o objetivo de trazer informações científicas sobre as questões que envolvem as diversas identidades de gênero e orientações sexuais. Podemos ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais, pansexuais, cisgêneros, transgêneros, não binários, intersexuais, assexuais, entre outras denominações. O conhecimento científico sobre o gênero e a sexualidade é importante, nos ajuda a entender o funcionamento da sexualidade humana. Mas precisamos ir além, precisamos ter consciência de que para se ter um entendimento mais aprofundado sobre o assunto, só a ciência não basta; precisamos de um posicionamento ético, político e filosófico. Os cientistas consideravam a homossexualidade uma doença ou um transtorno mental até maio de 1990, quando a Organização Mundial de Saúde atualizou a Classificação Internacional de Doenças, a CID. E até janeiro de 2018 os mesmos cientistas ainda consideravam a transexualidade uma doença ou um transtorno mental. O que mudou em 1990 ou em 2018...

Vivemos uma epidemia de solidão

Estamos vivendo uma epidemia de solidão. Uma parte grande da população brasileira está se sentindo sozinha, e sofrendo por isso. A observação empírica, na clínica, me mostra que a solidão está sendo uma das principais causas dos sintomas depressivos dos pacientes. Mais que a observação empírica, pesquisas nacionais e internacionais estão mostrando a mesma coisa, apontando inclusive que a solidão é um problema de proporção mundial. Por que estamos nos sentindo tão sozinhos? Entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, o Instituto Ipsos realizou uma pesquisa sobre solidão em 28 países. O Brasil ocupou o topo do ranking, foi o país com mais pessoas se sentindo sozinhas no mundo, segundo esse levantamento. A pesquisa ouviu mil brasileiros e concluiu que exatamente metade da população pesquisada, 50% de nós, se sente sozinha. É claro que a pandemia da Covid-19 aumentou o sentimento de solidão, mas temos motivos para acreditar que continuamos vivendo uma epidemia desse sentimento, possivelmente...

Sobre o uso abusivo de jogos eletrônicos: quando a realidade se apresenta 'nua e crua' demais

A Organização Mundial da Saúde (OMS), no seu mais novo manual de classificação de transtornos mentais e de comportamento, a CID-11 (ainda não lançada no Brasil), classificou pela primeira vez o uso abusivo de jogos eletrônicos como um transtorno mental. Na prática, a nova classificação coloca o uso abusivo de jogos eletrônicos na mesma prateleira dos transtornos de dependência, como a dependência de álcool e outras drogas e de jogos de azar. Essa nova classificação mostra que o uso abusivo de jogos eletrônicos está crescendo em todo o mundo e que esse problema está começando cedo demais. Os pais de crianças pequenas sabem como os jogos eletrônicos prendem a atenção delas, e como pode ser difícil conseguir que a criança desenvolva outros interesses que não o videogame. Uma pergunta se faz importante: como os jogos eletrônicos prendem tão intensamente a atenção das pessoas, sejam crianças, adolescentes ou adultos? Fisiologicamente, a resposta mais simples é: os jogos eletrônicos oferecem...

Para entender a ansiedade

Em uma palestra recente, perguntei quem tinha ansiedade e a maioria das pessoas não levantaram a mão, apontando que elas não tinham. Essa pequena experiência me mostrou que muitas pessoas pensam que a ansiedade é um problema, um transtorno ou uma doença mental, como se fosse um sintoma que uns têm e outros não. A verdade é que todos têm ansiedade, porque ela é uma reação natural do organismo humano, um mecanismo evolutivo de defesa necessário para a sobrevivência. A ansiedade é desencadeada pelo medo. Quando sente medo a pessoa entra em um estado de ansiedade, um mecanismo de defesa do organismo para a proteger de uma ameaça. Em outras palavras, a ansiedade prepara o organismo para enfrentar ou fugir de uma ameaça. Um exemplo que costumo oferecer a meus pacientes: se um leão aparece na sala onde você está agora, provavelmente você sentirá medo e entrará em um estado de ansiedade. O seu coração pode bater mais rápido, sua respiração pode ficar mais ofegante, você pode ter a conhecida “s...

Conheça-se

Este artigo é uma continuação direta do meu artigo anterior, intitulado “Quem deseja ser feliz deve ser firme”, tema que me foi inspirado pelo livro “Persuasão”, de Jane Austen. A necessidade de aprofundar ainda mais no tema me fez escrever este novo artigo. A firmeza, característica apontada por um personagem da escritora inglesa, refere-se à firmeza do caráter, ou seja, à consciência de quem se é, para que a pessoa não seja influenciada pelos outros como se estivesse “ao sabor do vento”. Não é fácil saber quem se é. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche apontou a importância desse conhecimento na frase que constitui o subtítulo de um livro seu, “Torna-te quem tu és”. O filósofo grego Sócrates também apontou a mesma importância na sua famosa frase “Conhece-te a ti mesmo”. A dedicação desses dois grandes pensadores sobre o tema deixa clara uma coisa: conhecer-se é um desafio difícil. Assim como se manter firme é um desafio igualmente difícil. Conhecer-se não significa caracterizar a pr...

Quem deseja ser feliz deve ser firme

A inspiração para um artigo meu, geralmente, são as histórias dos meus pacientes, bem como o processo de tratamento pela psicoterapia. Contudo, o ponto de partida deste artigo foi um livro, intitulado “Persuasão”, escrito por Jane Austen no século XIX. Em uma caminhada pelos campos no interior da Inglaterra, um dos personagens diz: “O pior dos males de um caráter maleável e indeciso é que não se pode confiar em ter influência sobre ele. Nunca podemos ter a certeza de que uma boa impressão será durável. Todos são capazes de influenciá-lo. Quem deseja ser feliz deve ser firme.” Para o personagem, a felicidade exige firmeza. E o sentido de firmeza aqui é o tradicional: tem a ver com segurança, consistência, estabilidade. A felicidade, então, pressupõe esses estados de espírito. É claro que sempre se está em terreno movediço quando se busca caracterizar a vida de forma universal, encontrar uma explicação que sirva para todas as pessoas em todos os momentos históricos pode ser um erro, pois...

Por que pode ser tão difícil identificar os próprios sentimentos

Identificar os próprios sentimentos e pensamentos pode ser um desafio surpreendentemente comum. Quando não querem interferências, as pessoas costumam dizer: “Quem melhor do que eu para saber sobre mim?” E é verdade, ninguém sabe mais sobre uma pessoa do que ela mesma. Contudo, não é sempre verdade. Muitas vezes, as pessoas não sabem sobre elas mesmas, não sabem nomear os próprios sentimentos. Nesses casos, perguntar sobre a causa dos seus sofrimentos é esperar demais. Por que isso acontece? Por que uma pessoa, que está sentindo e pensando no momento presente, não consegue identificar seus próprios sentimentos e pensamentos? A verdade é que a habilidade de nomear os sentimentos não é uma habilidade inata, a criança precisa aprender com seus cuidadores a nomear adequadamente o que se passa com ela. Se uma criança chora ou fica agressiva após uma apresentação teatral na escola, os pais podem ajudá-la nomeando o seu sentimento como vergonha. A partir dessa nomeação, uma série de conversas ...

Sobre as expectativas dos pais sobre os filhos

Os filhos nascem antes do parto, ou mesmo antes da concepção. Nascem na cabeça ou no coração dos pais, por assim dizer. Os pais imaginam os filhos, sonham com eles, criam expectativas sobre como eles serão. É claro que isso não acontece todas as vezes nessa sequência linear, mas mesmo pais que aceitam a maternidade ou paternidade em um momento posterior criam essas expectativas. E quando os filhos nascem e crescem, as expectativas dos pais são confrontadas pela realidade. A expectativa nasce do amor. Faz os pais vivenciarem a maternidade ou paternidade antes, os prepara para serem pais nas várias fases da vida do filho. Assim, um pai pode se imaginar trocando a fralda do filho recém-nascido e uma mãe pode imaginar a alegria de poder amamentá-lo. A expectativa os faz pesquisarem sobre as formas mais adequadas de educar ou sobre os alimentos mais saudáveis para uma criança, por exemplo. Atualmente se costuma falar que é bom não se criar expectativas ao se iniciar um novo relacionamento, ...

O problema da procrastinação e desatenção

Os pais querem ensinar muitas coisas aos filhos, mas geralmente ensinar a sofrer e a se frustrar não está entre os seus objetivos. Pelo contrário, os pais costumam querer evitar que seus pequenos sofram. É claro que querer o sofrimento dos filhos não deve ser um objetivo dos pais, o problema é que a vida produz sofrimento, e precisamos aprender a suportá-lo para, depois, enfrentá-lo e superá-lo. Frequentemente recebo na clínica pessoas se queixando de procrastinação e desatenção. Muitas chegam inclusive com um diagnóstico “autofeito”: TDAH. Quando isso acontece, costumam rapidamente pedir um encaminhando para um psiquiatra, quando já não o procuraram de antemão. O diagnóstico, que apenas descreve uma disfuncionalidade, ou seja, não aponta uma causa, estimula as pessoas a colocarem a causa do problema em uma disfunção química. Para isso, elas tomam um remédio. Os psiquiatras reforçam esse pensamento equivocado quando medicam sem avaliar a causa com precisão. O mundo está vivendo uma cri...

Quando ceder se torna demais

Em um relacionamento amoroso é comum observarmos um dos parceiros cedendo demais, enquanto o outro se mantém mais livre para ser ele mesmo e fazer o que quer. O parceiro que cede mais o faz, comumente, para evitar conflitos, ou seja, manter o relacionamento estável e pacífico. Mas essa atitude realmente funciona? E mais importante: Qual o preço que se paga por ela? Após o economista estadunidense Milton Friedman (1912-2006), ganhador do prêmio Nobel de 1976, dizer que “não existe almoço grátis”, referindo-se aos custos de um benefício gratuito concedido por um governo, a frase ficou popularmente conhecida. Costuma-se dizer, então, que não existe almoço grátis porque alguém sempre paga a conta. Não me refiro aqui ao mérito econômico, mas observo um padrão semelhante nas relações humanas. Em outras palavras, a pessoa que cede demais costuma pagar e cobrar um preço por isso. Um preço invisível, porém que pode ser muito alto. Um paciente me mostrou um exemplo perfeito do preço que se paga ...

Até onde deve ir a proteção dos pais?

O título inicial deste artigo era “Até onde deve ir a proteção materna?”, porque é mais comum as mães superprotegerem os filhos. Mas seria injusto, os pais também superprotegem os filhos, embora com menos frequência. Além disso, frequentemente a superproteção materna aparece como uma consequência parcial da ausência paterna. De toda forma, o problema é o mesmo: a superproteção. Até onde deve ir a proteção dos pais? Os bebês nascem completamente dependentes da proteção paterna, incluindo no adjetivo a mãe ou uma pessoa diferente que exerça essa função. Por consequência da maturação do organismo e da aprendizagem por imitação, o bebê cresce e se torna um pouco mais independente, conseguindo, por exemplo, comer sozinho uma comida que se apresenta diante dele. A criança maior aprende também por consequência da maturação do organismo e da aprendizagem por imitação, mas adquire uma habilidade nova: a reflexão. Essa habilidade se desenvolve até a fase adulta e se torna responsável...

Por que pode ser tão difícil escolher a profissão

O jovem que está saindo do ensino médio pode ser pressionado a fazer uma escolha difícil: “Qual profissão eu quero para mim?”. Eu falo “pode” porque infelizmente essa não é a realidade de todos os jovens, especialmente os brasileiros. Nas classes mais baixas, a escolha profissional pode ser feita mais pelas poucas oportunidades que aparecem do que por uma escolha pensada. Contudo, felizmente a possibilidade de uma escolha pensada é uma realidade para muitos jovens. E, para escolher, é preciso ter liberdade, e a liberdade acompanhada de incerteza pode causar muita angústia. Escolher uma profissão pode significar escolher o que fazer como atividade laboral pelo resto da vida, e existe uma pressão social para que essa escolha aconteça na adolescência. Não parece uma exigência excessiva para pessoas ainda imaturas? Minha resposta é simples: não. Espera-se que adolescentes saudáveis tenham maturidade suficiente para escolher uma profissão. Entretanto, pensamentos inadequados podem dificulta...

Como enfrentar o medo

O medo é uma emoção que pode paralisar a vida de uma pessoa. Muitos são os fenômenos que podem causar o medo, mas uma pandemia, como a da Covid-19, especialmente com a chegada da variante ômicron, é com certeza um forte elemento desencadeante. E as pessoas estão sofrendo pelo excesso do medo. Uma consequência imediata do medo é o aparecimento da ansiedade, um sintoma excessivamente comum nos dias atuais. Antes de aprofundar no assunto, celebro aqui a campanha Janeiro Branco, que promove a visibilidade do cuidado com a saúde mental. Com os lemas “O mundo pede saúde mental!”, “Quem cuida da mente, cuida da vida!” e “Todos têm direito à saúde mental!”, a campanha busca eliminar o preconceito que existe sobre o cuidado com essa importante área da saúde. O medo causa a ansiedade. Entramos em um estado de ansiedade quando sentimos medo. É um mecanismo evolutivo de defesa. Se você está diante de um leão, você precisa sentir medo e seu organismo precisa se preparar para fugir ou en...

Como fazer uma família reconstituída dar certo

Viver em família é a causa das maiores felicidades e infelicidades das vidas das pessoas. A família é a base da nossa sociedade. Todos nós nascemos no seio de uma família e aqueles entre nós que não tiveram essa oportunidade geralmente vivem em relativa exclusão da sociedade, pois ela é constituída por núcleos familiares. Contudo, já é difícil fazer a família constituída pela primeira vez funcionar bem. A família reconstituída enfrenta ainda mais desafios que a primeira. Como fazer dar certo? Neste texto, descrevo os principais desafios desse tipo de família. O primeiro deles é integrar os novos membros na unidade familiar. A família é uma unidade e todos os seus membros funcionam como engrenagens em um sistema, o que significa que o que acontece com um afeta o outro. Assim, a família reconstituída precisa constituir uma unidade na qual todos os membros se reconheçam como uma família; em outras palavras, como um sistema. Na clínica, uma vez atendi uma família reconstituída na qual a mu...