Os filhos nascem antes do parto, ou mesmo antes da concepção. Nascem na cabeça ou no coração dos pais, por assim dizer. Os pais imaginam os filhos, sonham com eles, criam expectativas sobre como eles serão. É claro que isso não acontece todas as vezes nessa sequência linear, mas mesmo pais que aceitam a maternidade ou paternidade em um momento posterior criam essas expectativas. E quando os filhos nascem e crescem, as expectativas dos pais são confrontadas pela realidade.
A expectativa nasce do amor. Faz os pais vivenciarem a maternidade ou paternidade antes, os prepara para serem pais nas várias fases da vida do filho. Assim, um pai pode se imaginar trocando a fralda do filho recém-nascido e uma mãe pode imaginar a alegria de poder amamentá-lo. A expectativa os faz pesquisarem sobre as formas mais adequadas de educar ou sobre os alimentos mais saudáveis para uma criança, por exemplo.
Atualmente se costuma falar que é bom não se criar expectativas ao se iniciar um novo relacionamento, por exemplo. Acredita-se que é bom evitá-las porque elas podem fazer a pessoa sofrer. Certamente a expectativa frustrada pode fazer a pessoa desabar em si mesma. Contudo, a ausência da expectativa significa a ausência do amor, ou seja, sem ela a indiferença estabelece o seu reinado. Percebo que nos tempos líquidos atuais a criação de expectativas pode causar muito sofrimento, pois falta solidez nas relações, e não somente nas relações românticas. Contudo, evitar amar para evitar o sofrimento pode ser a causa de muito mais sofrimento. Acredito que o que se precisa fazer é aprender a criar expectativas realistas.
Acontece que as expectativas que os pais criam sobre os filhos frequentemente não os preparam de forma adequada para educá-los. Percebo na clínica como as expectativas rígidas e exageradas podem causar muito sofrimento em todas as pessoas envolvidas. Os pais podem imaginar como os filhos serão, as características da sua personalidade, os seus gostos, a sua forma de pensar. Muitas vezes essas expectativas não são realistas. Não se pode esperar moldar um filho à sua imagem e semelhança. Filhos são pessoas com personalidades próprias e que sofrem influência não apenas dos pais, mas da família extensa, dos amigos, da escola e da sociedade como um todo.
Recentemente recebi na clínica uma família com um adolescente apresentando problemas de aprendizado, de relacionamento com os colegas da escola e desobediência. A entrevista psicológica rapidamente mostrou que a origem do seu sofrimento era a percepção de não atender às expectativas dos pais. Ele tinha um irmão que, na visão dele, atendia às expectativas deles, como gostar de futebol como o pai e ter amigos homens e interesse sexual por mulheres. Como recebia muitas críticas dos pais, que criaram a expectativa de um filho diferente, começou a se opor a eles, a contrariá-los. Ele estava testando o amor dos pais, queria ver se eles o amariam mesmo ele sendo o oposto do que esperavam.
Essa família mostra como as expectativas rígidas e exageradas podem causar muito sofrimento em todas as pessoas envolvidas. Criar expectativas realistas sobre os filhos, que respeitem a sua autonomia, é essencial para produzir um ambiente que facilite a vivência do amor entre todos, sem o domínio do autoritarismo, dos conflitos constantes e da indiferença. Aceitar e respeitar as diferenças costuma ser um desafio, porém é um desafio essencial não apenas no domínio dos relacionamentos íntimos, mas em todos os domínios nos quais existam seres humanos vivendo em comunidade.
Texto: Rodrigo Tavares Mendonça / Imagem: Marcelino Castro Pestillo

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