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Vivemos uma epidemia de solidão


Estamos vivendo uma epidemia de solidão. Uma parte grande da população brasileira está se sentindo sozinha, e sofrendo por isso. A observação empírica, na clínica, me mostra que a solidão está sendo uma das principais causas dos sintomas depressivos dos pacientes. Mais que a observação empírica, pesquisas nacionais e internacionais estão mostrando a mesma coisa, apontando inclusive que a solidão é um problema de proporção mundial. Por que estamos nos sentindo tão sozinhos?

Entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, o Instituto Ipsos realizou uma pesquisa sobre solidão em 28 países. O Brasil ocupou o topo do ranking, foi o país com mais pessoas se sentindo sozinhas no mundo, segundo esse levantamento. A pesquisa ouviu mil brasileiros e concluiu que exatamente metade da população pesquisada, 50% de nós, se sente sozinha. É claro que a pandemia da Covid-19 aumentou o sentimento de solidão, mas temos motivos para acreditar que continuamos vivendo uma epidemia desse sentimento, possivelmente até uma pandemia. Muitas pesquisas, mesmo antes da pandemia do coronavírus, já apontavam a solidão como um problema de saúde pública em muitos países do mundo. Parece fake news, mas em 2018 o Reino Unido criou um Ministério da Solidão, com o objetivo de criar políticas públicas específicas para enfrentar o problema no país. Decisão semelhante foi tomada pelo Japão, em 2021.

Somos seres sociais, relacionarmos uns com os outros não é um passatempo, é uma necessidade. A vida ganha sentido pelas relações que construímos. Não podemos pensar uma vida feliz sem relações humanas, totalmente solitária. O que faz a vida ganhar sentido é a qualidade das relações que estabelecemos com os outros. E não somente relações com pessoas próximas, como família ou amigos, mas também sobre o lugar que ocupamos na sociedade. Pertencer e colaborar são funções fundamentais para nós, seres humanos.

Percebo na clínica pessoas tristes sem um motivo aparente e sem compreenderem o por quê de estarem assim. As pessoas simplesmente não sabem por qual razão estão tristes, não identificam uma causa. Sentem-se sozinhas, mesmo tendo pessoas em suas vidas. Acontece que não bastam pessoas em nossas vidas, precisamos de conexões, de intimidade. Queremos compartilhar não apenas uma mesa de bar no fim de semana, mas construir laços de intimidade, sentir que pertencemos àquelas pessoas, que somos parte de um grupo, que “estamos juntos” de verdade. Perceba que estou falando sobre pertencimento, não apenas sobre “ter uma pessoa para conversar quando estamos tristes”. Isso é importante, mas só isso não basta, precisamos de nos pertencer uns aos outros. É pela falta de pertencimento que muitas pessoas com família e amigos não compreendem o motivo de ainda assim se sentirem sozinhas.

Conhecemos o significado da palavra pertencimento porque a família está na base da nossa sociedade. Nós pertencemos às nossas famílias, temos nelas um porto seguro, sabemos que o navio da nossa vida não está à deriva, que se o mar estiver revolto demais temos um cais para atracar. E sabemos também, por experiência ou empatia, o tamanho do sofrimento quando se falta esse vínculo de pertencimento, quando não se tem uma família ou quando os vínculos familiares são frágeis demais para se construir um sentimento forte de pertencer. Acontece que os vínculos familiares não são suficientes para evitar o sentimento de solidão. Queremos pertencer não somente à nossa família, mas à nossa sociedade. Queremos colaborar com a vida em sociedade e possuir vínculos de pertencimento com amigos ou com instituições que possuam significados para nós. Em outras palavras, queremos o porto seguro familiar, mas queremos também navegar, sair de casa e nos sentir pertencentes a outras pessoas.

Quando não se compreende isso, ou seja, o que se quer de verdade, não se sabe o motivo de estar em sofrimento. E o que se quer de verdade não é o que a pessoa deseja ou sonha, porque desejos e sonhos são construções sociais. O que se quer de verdade é uma necessidade da nossa natureza humana. Um exemplo: um paciente sonhava em trabalhar em home office e ter dinheiro e tempo suficientes para comprar um videogame atual e ficar muitas horas por dia jogando. Ele realizou seu sonho, mas se deprimiu anos depois. E sem saber o motivo. Como nunca se deu muito bem em relações sociais, acreditava que não precisava se relacionar com as pessoas. Não compreendia que a solidão fazia a sua vida perder o sentido. Percebo na clínica que frequentemente a solidão é um sentimento invisível, que entristece a vida sem que a pessoa perceba.

A organização da sociedade atual facilita o aparecimento da solidão. Cada vez mais pessoas estão morando sozinhas e muitas decidem não se casar ou ter filhos. Os celulares nos satisfazem em um universo ao mesmo tempo conectado e isolado dos outros. As relações líquidas, aquelas que começam e terminam sem a construção de um vínculo forte, estão cada vez mais comuns. A própria ideia de pertencimento está sendo desvalorizada, com muitas pessoas buscando somente realizações pessoais, construindo mais relações de competição com outras pessoas que de colaboração. A busca por prazeres imediatos fortalece essa visão de mundo mais individualista. Enfim, muitos elementos podem compor o mosaico da solidão em nossa sociedade. E é claro que nenhum deles sozinho faz as pessoas se sentirem sozinhas. Até para se criar solidão é preciso um conjunto.

Nós precisamos uns dos outros, precisamos criar laços de pertencimento, de intimidade e, para isso, precisamos confiar uns nos outros. Precisamos aprender, inclusive, que se isolar para evitar traumas relacionais apenas cria um problema maior. Faz parte da nossa natureza, nós somos seres sociais.

Texto: Rodrigo Tavares Mendonça / Imagem: Caio Santos

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