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Para entender a ansiedade

Em uma palestra recente, perguntei quem tinha ansiedade e a maioria das pessoas não levantaram a mão, apontando que elas não tinham. Essa pequena experiência me mostrou que muitas pessoas pensam que a ansiedade é um problema, um transtorno ou uma doença mental, como se fosse um sintoma que uns têm e outros não. A verdade é que todos têm ansiedade, porque ela é uma reação natural do organismo humano, um mecanismo evolutivo de defesa necessário para a sobrevivência. A ansiedade é desencadeada pelo medo. Quando sente medo a pessoa entra em um estado de ansiedade, um mecanismo de defesa do organismo para a proteger de uma ameaça. Em outras palavras, a ansiedade prepara o organismo para enfrentar ou fugir de uma ameaça. Um exemplo que costumo oferecer a meus pacientes: se um leão aparece na sala onde você está agora, provavelmente você sentirá medo e entrará em um estado de ansiedade. O seu coração pode bater mais rápido, sua respiração pode ficar mais ofegante, você pode ter a conhecida “s...

Conheça-se

Este artigo é uma continuação direta do meu artigo anterior, intitulado “Quem deseja ser feliz deve ser firme”, tema que me foi inspirado pelo livro “Persuasão”, de Jane Austen. A necessidade de aprofundar ainda mais no tema me fez escrever este novo artigo. A firmeza, característica apontada por um personagem da escritora inglesa, refere-se à firmeza do caráter, ou seja, à consciência de quem se é, para que a pessoa não seja influenciada pelos outros como se estivesse “ao sabor do vento”. Não é fácil saber quem se é. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche apontou a importância desse conhecimento na frase que constitui o subtítulo de um livro seu, “Torna-te quem tu és”. O filósofo grego Sócrates também apontou a mesma importância na sua famosa frase “Conhece-te a ti mesmo”. A dedicação desses dois grandes pensadores sobre o tema deixa clara uma coisa: conhecer-se é um desafio difícil. Assim como se manter firme é um desafio igualmente difícil. Conhecer-se não significa caracterizar a pr...

Quem deseja ser feliz deve ser firme

A inspiração para um artigo meu, geralmente, são as histórias dos meus pacientes, bem como o processo de tratamento pela psicoterapia. Contudo, o ponto de partida deste artigo foi um livro, intitulado “Persuasão”, escrito por Jane Austen no século XIX. Em uma caminhada pelos campos no interior da Inglaterra, um dos personagens diz: “O pior dos males de um caráter maleável e indeciso é que não se pode confiar em ter influência sobre ele. Nunca podemos ter a certeza de que uma boa impressão será durável. Todos são capazes de influenciá-lo. Quem deseja ser feliz deve ser firme.” Para o personagem, a felicidade exige firmeza. E o sentido de firmeza aqui é o tradicional: tem a ver com segurança, consistência, estabilidade. A felicidade, então, pressupõe esses estados de espírito. É claro que sempre se está em terreno movediço quando se busca caracterizar a vida de forma universal, encontrar uma explicação que sirva para todas as pessoas em todos os momentos históricos pode ser um erro, pois...

Por que pode ser tão difícil identificar os próprios sentimentos

Identificar os próprios sentimentos e pensamentos pode ser um desafio surpreendentemente comum. Quando não querem interferências, as pessoas costumam dizer: “Quem melhor do que eu para saber sobre mim?” E é verdade, ninguém sabe mais sobre uma pessoa do que ela mesma. Contudo, não é sempre verdade. Muitas vezes, as pessoas não sabem sobre elas mesmas, não sabem nomear os próprios sentimentos. Nesses casos, perguntar sobre a causa dos seus sofrimentos é esperar demais. Por que isso acontece? Por que uma pessoa, que está sentindo e pensando no momento presente, não consegue identificar seus próprios sentimentos e pensamentos? A verdade é que a habilidade de nomear os sentimentos não é uma habilidade inata, a criança precisa aprender com seus cuidadores a nomear adequadamente o que se passa com ela. Se uma criança chora ou fica agressiva após uma apresentação teatral na escola, os pais podem ajudá-la nomeando o seu sentimento como vergonha. A partir dessa nomeação, uma série de conversas ...

Sobre as expectativas dos pais sobre os filhos

Os filhos nascem antes do parto, ou mesmo antes da concepção. Nascem na cabeça ou no coração dos pais, por assim dizer. Os pais imaginam os filhos, sonham com eles, criam expectativas sobre como eles serão. É claro que isso não acontece todas as vezes nessa sequência linear, mas mesmo pais que aceitam a maternidade ou paternidade em um momento posterior criam essas expectativas. E quando os filhos nascem e crescem, as expectativas dos pais são confrontadas pela realidade. A expectativa nasce do amor. Faz os pais vivenciarem a maternidade ou paternidade antes, os prepara para serem pais nas várias fases da vida do filho. Assim, um pai pode se imaginar trocando a fralda do filho recém-nascido e uma mãe pode imaginar a alegria de poder amamentá-lo. A expectativa os faz pesquisarem sobre as formas mais adequadas de educar ou sobre os alimentos mais saudáveis para uma criança, por exemplo. Atualmente se costuma falar que é bom não se criar expectativas ao se iniciar um novo relacionamento, ...

O problema da procrastinação e desatenção

Os pais querem ensinar muitas coisas aos filhos, mas geralmente ensinar a sofrer e a se frustrar não está entre os seus objetivos. Pelo contrário, os pais costumam querer evitar que seus pequenos sofram. É claro que querer o sofrimento dos filhos não deve ser um objetivo dos pais, o problema é que a vida produz sofrimento, e precisamos aprender a suportá-lo para, depois, enfrentá-lo e superá-lo. Frequentemente recebo na clínica pessoas se queixando de procrastinação e desatenção. Muitas chegam inclusive com um diagnóstico “autofeito”: TDAH. Quando isso acontece, costumam rapidamente pedir um encaminhando para um psiquiatra, quando já não o procuraram de antemão. O diagnóstico, que apenas descreve uma disfuncionalidade, ou seja, não aponta uma causa, estimula as pessoas a colocarem a causa do problema em uma disfunção química. Para isso, elas tomam um remédio. Os psiquiatras reforçam esse pensamento equivocado quando medicam sem avaliar a causa com precisão. O mundo está vivendo uma cri...

Quando ceder se torna demais

Em um relacionamento amoroso é comum observarmos um dos parceiros cedendo demais, enquanto o outro se mantém mais livre para ser ele mesmo e fazer o que quer. O parceiro que cede mais o faz, comumente, para evitar conflitos, ou seja, manter o relacionamento estável e pacífico. Mas essa atitude realmente funciona? E mais importante: Qual o preço que se paga por ela? Após o economista estadunidense Milton Friedman (1912-2006), ganhador do prêmio Nobel de 1976, dizer que “não existe almoço grátis”, referindo-se aos custos de um benefício gratuito concedido por um governo, a frase ficou popularmente conhecida. Costuma-se dizer, então, que não existe almoço grátis porque alguém sempre paga a conta. Não me refiro aqui ao mérito econômico, mas observo um padrão semelhante nas relações humanas. Em outras palavras, a pessoa que cede demais costuma pagar e cobrar um preço por isso. Um preço invisível, porém que pode ser muito alto. Um paciente me mostrou um exemplo perfeito do preço que se paga ...