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A ansiedade das missões impossíveis


Uma das causas mais comuns para a ansiedade elevada é se colocar missões impossíveis. Se a sua ansiedade está elevada é possível que esteja em uma delas, mesmo que não perceba. Missões impossíveis são objetivos de vida que, como o próprio nome indica, são impossíveis de se alcançar. Tentar moldar o comportamento, o sentimento ou o pensamento do outro é, com certeza, o tipo mais comum de missão impossível.

Recentemente, uma paciente que sofre a ausência do amor materno me disse, na clínica: “eu só quero que minha mãe entenda que ela precisa ter mais empatia comigo”. A intenção é boa, mas a estratégia é ruim. Não está nas mãos de uma filha moldar o pensamento de uma mãe, na verdade não está nas mãos de uma pessoa moldar o pensamento de outra. Isso é uma missão impossível. Há quem passe a vida inteira tentando moldar o pensamento dos pais, do marido ou esposa, dos filhos, dos amigos. O resultado é a ansiedade elevada e uma instabilidade emocional, ou seja, uma variação constante entre bem-estar e frustração. Quando isso acontece desde a infância a pessoa pode acreditar que ela é ansiosa por natureza ou tem bipolaridade, como se fosse uma característica inata.

Por ser uma missão impossível, o resultado certo é a frustração, além da ansiedade elevada. Pode-se tentar fazer a mãe ter mais empatia, ser valorizada pelo marido por ser uma esposa que cuida bem dele, ser valorizado pela esposa por ser um marido que provém a casa adequadamente, fazer o namorado se sentir culpado por não ter satisfeito uma vontade sua anterior, garantir não contrair um vírus. Enfim, a lista é infinita - e todos esses exemplos são reais. Muitas vezes, a pessoa consegue alcançar o objetivo, como, por exemplo, fazer o namorado se sentir culpado. Contudo, certamente uma situação semelhante acontecerá no futuro e uma nova tentativa será necessária. Às vezes, a tentativa não funciona, e a pessoa precisa de uma nova estratégia. Esse ciclo vicioso de tentativas de moldar o comportamento do outro produz ansiedade mesmo que a pessoa alcance um sucesso relativo, pois o que produz a ansiedade é a incerteza constante causada pela missão impossível. Assim, tentativas constantes e ciclos de sucesso e de fracasso em moldar o comportamento do outro são causas comuns para a ansiedade elevada crônica.

Uma diferenciação necessária é entre querer ajudar o outro e se colocar como missão mudar o outro. Novamente, exemplifico com um caso real. Um paciente ficou com raiva porque a esposa estava usando seu pouco tempo livre para resolver problemas para outras pessoas, pois ela reclamava que não tinha tempo para ela. A raiva do paciente revela que ele estava se exigindo mudar a esposa, ou não a aceitando como ela é; em outras palavras, colocando-se uma missão impossível. Quando queremos ajudar o outro, mesmo que para mudar o comportamento, sentimento ou pensamento da pessoa, e não conseguimos, o sentimento que sobra é a tristeza. Ficamos tristes quando não conseguimos ajudar. Quando nos exigimos mudar o outro o sentimento que sobra é a raiva, a frustração por termos fracassado. Então, querer ajudar o outro e se colocar como missão mudar o outro são atitudes diferentes, que produzem efeitos diferentes em nós.

A pandemia da Covid-19 produziu um cenário perfeito para o desenvolvimento de ansiedades elevadas causadas por missões impossíveis. A causa é simples: é impossível se proteger totalmente do novo coronavírus. Colocar-se como missão não contrair a doença é uma missão impossível, e sua tentativa, se feita de forma obsessiva, mesmo que esteja alcançando o sucesso, produz ansiedade, pois, como eu disse anteriormente, a ansiedade é causada pela incerteza e pela tentativa constante de alcançar o objetivo.

Trata-se a ansiedade evitando se proteger do vírus, então? Claro que não. A tentativa é fundamental para se proteger. Trata-se a ansiedade aceitando que não está nas suas mãos se proteger totalmente. Trata-se a ansiedade aceitando a incerteza. Buscar certezas é mais uma missão impossível, que certamente é a causa de muitas ansiedades elevadas.

Mais uma vez, exemplifico com um caso real. Um paciente sofre por pensar que a esposa o está traindo, mesmo sem nenhuma evidência da traição. Ele busca uma certeza, então emite comportamentos de vigilância, torna-se um vigilante da fidelidade da esposa. Além de prejudicar a relação com a esposa, pois ela não aceita a desconfiança exagerada, a vigilância, ou seja, a tentativa constante de buscar uma certeza, produz ansiedade. Na verdade, nunca se tem total certeza sobre a fidelidade do cônjuge, por isso se confia. A confiança existe justamente por causa da ausência de certeza. De uma forma geral, aceitar a incerteza é o melhor caminho para não se produzir ansiedade.

Texto: Rodrigo Tavares Mendonça / Imagem: Vincent van Gogh

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