No dia 8 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher, feriado oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975. É comum celebrarmos o dia das mulheres exaltando características específicas delas, ou seja, o que as difere dos homens. Exalta-se, assim, a mulher como o ser que cuida, que ama incondicionalmente, que tem uma sensibilidade especial, que simboliza a beleza, que gera a vida, entre outras coisas. Contudo, será que essas características são realmente específicas das mulheres? E será adequado buscarmos definir as características específicas das mulheres?
Conta-se que a primeira proposta pública para a criação do dia da mulher aconteceu em Copenhague, Dinamarca, em 1910, pela ativista alemã Clara Zetkin, no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas. Essa proposta tinha o objetivo principal de defender os direitos iguais entre homens e mulheres na esfera trabalhista. Entretanto, não foi imediatamente aceita pela comunidade internacional, embora tenha se tornado uma referência para a luta das mulheres. A proposta entrou no debate público durante as incontáveis greves em vários países do mundo pela defesa dos direitos das mulheres, especialmente nas esferas trabalhista e eleitoral.
No dia 8 de março de 1917, na Rússia, trabalhadoras do setor de tecelagem entraram em greve e ainda estimularam os operários do setor de metalurgia a fazerem o mesmo. Foi um marco para a luta das mulheres. Essa greve teve como referência o incêndio em uma indústria têxtil que aconteceu no dia 25 de março de 1911, em Nova Iorque, Estados Unidos, que matou 125 mulheres e 21 homens. O incêndio foi causado por negligência dos proprietários com a manutenção das instalações elétricas da fábrica. Esse descuido, que revela uma desvalorização dos trabalhadores e, especialmente, das trabalhadoras, serviu de motivação para a luta das mulheres pelo mundo.
Após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da ONU para organizar diplomaticamente os diferentes interesses dos países e assim manter a paz mundial, foi estabelecido, tendo como referência os dois acontecimentos de março citados anteriormente, o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Como se pode ver, a origem do dia das mulheres não tem nada a ver com a celebração do que existe de específico nas mulheres, ou seja, não é uma celebração das características de cuidado, amor, sensibilidade, beleza. O que existe na origem do dia das mulheres é a luta por igualdade de direitos.
Acredito que exaltar as características específicas das mulheres seja um erro radical, uma postura que reforça a submissão delas a um ideal socialmente construído. Reforçar a mulher como o ser que cuida exclui do ideal de boa mulher aquelas que não querem filhos, por exemplo, ou aquelas que não priorizam o cuidado com a família e a casa, que buscam um caminho mais solitário ou independente. Reforçar a mulher como o ser que ama incondicionalmente limita o ideal de boa mulher naquelas que priorizam o amor ao marido e aos filhos, por exemplo, além de excluir os homens do papel de também amar incondicionalmente. Reforçar a mulher como o ser que tem uma sensibilidade especial exclui do ideal de boa mulher aquelas com comportamentos mais objetivos ou agressivos, normalmente visto nos homens; além de limitar os homens a um ideal também socialmente construído.
Enfim, definir características específicas das mulheres pode limitar a liberdade delas de serem o que elas quiserem ser. Complementarmente, o mesmo vale para os homens, pois a definição de um papel feminino define também um papel masculino. E como todas as características que definem o ideal de uma boa mulher ou de um bom homem foram construídas socialmente, ou seja, não estão na biologia da mulher ou do homem, defini-las é um erro radical; inclusive para os homens, que se limitam em um papel que também os oprime.
Atualmente, as mulheres continuam em desvantagem de direitos em comparação com os homens. A pandemia do novo coronavírus escancarou o problema da violência doméstica, pois os casos aumentaram. Além de sofrerem nas mãos de maridos violentos, as mulheres sofrem assédio cotidianamente na rua e no trabalho. Elas ainda recebem menos que os homens e costumam trabalhar cuidando da casa e dos filhos bem mais que seus companheiros. Ou seja, a luta pela igualdade de direitos ainda se faz necessária.
Então, no dia das mulheres, o que devemos fazer não é parabenizá-las por terem características ideais construídas socialmente, mas valorizarmos a igualdade de direitos e a liberdade delas de viverem como elas quiserem. E vale enfatizar: só assim, sem a definição de características específicas ideais com base na identidade de gênero, os homens também terão a liberdade de viverem como eles quiserem.
Texto: Rodrigo Tavares Mendonça / Imagem: Eugène Delacroix

Comentários
Postar um comentário